quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Quotidiano

É tão estranho.
Mais uma entre inúmeras vezes vejo-me sentada frente a uma folha branca. Cena já comum nos meus dias de mulher em busca do conhecimento.
Esta madrugada acordei sobressaltada por uma angustia sem explicação. Quase pulei da cama para abrir o computador e buscar informações sobre as revoltas em Paris. Não por fugaz curiosidade, mas por sentir no peito uma dor silenciosa que não encontra válvula de escape.
Uma dor que por vezes me faz pensar que vai me por o coração abaixo, ou me forçar a prostrar os joelhos, arcar os ombros e carregar com ela ate o fim.Uma dor que também não é minha, parece ser de outros, outros todos que não conheço e que não sei que são.
Talvez parte deles sejam os jovens galopantes noturnos das frias ruas francesas, incendiários de honras, libertários, jovens quixotescos combando o dragão da rica ignorancia globalizada.
Talvez a sensação de impotência seja tamanha que precise do fogo para expurgar a dor.
Talvez?Cá nesse quarto amadeirado inerte, plantado no centro da nova Inglaterra, com suas gordas lareiras comendo saborosas madeiras, sinto-me frágil ‘esta manha estou tão fragil’Sonho de olhos abertos com a colina verde azul, refugio de monges e mulheres desesperadas.
E essas linhas banais, só mais algumas linhas banais e nada mais.
E eu que preciso escrever uma tese, fico a esparramar letras vãs em linhas frias, e sobe-me pela garganta um riso cínico e desconfiado:
és uma estúpida!
E o que importa? O que realmente importa?Não sei dizer.
Mas cada vez mais lembro, e me desespero com a ideia de não voltar a ver, as manhas acordadas com os galos cantando, com o barulho tropeço das vacas na estrebaria, o cheiro molhado doce do pasto, o gosto espesso do leite quente útero, e o silencio respeitoso dos pássaros no instante em que o sol se atrasa.
Aquela neblina embranhou-se nas minhas entranhas, flui pelos buracos do meu corpo, despeja-se como cascata pelos meus olhos e não sai da minha cabeça aquela imagem das galinhas ciscando a toa ao redor da casa.
Eu sinto como se estivesse no filme errado.
Ando pelas ruas e as pessoas se metem a me falar numa língua estranha, e eu que não sei falar, vou falando e é como se sempre tivesse feito parte de tudo isso.E ja não sei de que parte eu sou: daqui ou de lá. E o que significa o ‘lá’. Onde é este lugar?E nesse momento me lembro do gosto amargo do chimarrão da infância trilhada em vergões vermelhos nas pernas finas.E lembro das cruzes tortas nos tecidos xadrezes, pintadas com gotas de sangue desaranjado,do espatifar da bicicleta contra as ripas da cerca pálida caída, e o riso choro da minha mãe por não saber onde estavam os freiosdo porta malas vermelho ferrugem socado de pernas e braços rasgados em gritos indo prum banho de rio vermelhopoeirento,das roubadas latas de leite moça na pobreza de moças sem leite, e comíamos os doces que nossos suados pais operários imaginavam dar-nos em algum natal distante.
É lindo o que se faz escondido

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